domingo, 15 de novembro de 2015

Pequenas gotas de mim

Lembro-me da descoberta mais dolorosa
da minha infância, no extremo da 
minha mão.

A dor do corte
Da navalha afiada
que cortou a pele macia dos meus dedos
quando eu tinha apenas nove anos.

Descobri o sangue que havia em mim
E que correu de gota em gota os
cômodos da minha casa.

O corte no meu indicador
Me fez lembrar das carnes de açougue
que eram fatiadas por terçados.

Me vi pendurado naqueles 
ganchos cobertos por ferrugem

Aquele sangue era eu
Eram pequenas gotas de mim.

Meu pai limpou o sangue das lajotas
com álcool etílico.
Senti o cheiro de uma perícia criminal
vindo diretamente do chão

Eu sabia que não iria morrer.
Meu pai limpou meus dedos.
com água corrente e sabão.

Cobriu meu machucado com um band-aid
E me afastou da navalha, mantendo-a longe
de mim, como se faz com os alcoólatras.

Nunca mais quis enxergar uma navalha
em toda a minha vida.
Certas coisas é melhor não descobrir.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Metrô City Blood


Leonardo Dillen adorava as imagens que seus pais lhe mostravam do metrô de Tóquio, dos letreiros luminosos da Times Square e da caipirinha transbordante das taças de cristal de Rota 66 (famoso bar de botequeiros natos que para lá se dirigiam em busca de novos sabores em seu cotidiano amargo). Não era amante de bebidas alcoolicas, entretanto. Tinha apenas nove anos. Gostava, na verdade, da natureza nua das ruas. E, na maioria  do tempo, podia apenas sonhar com ela. Desejava, é obvio, não sentir-se atado como um condenado na cela mobíliada da seu quarto de papel de parede azul- claro e onde permanecia por vários anos de solidão intensa devido à graves motivos de saúde. Leonardo era portador de uma leocemia já pouco avançada e que deixava seus ossos em estado de penosa fragilidade. O anos que passou no hospital publico, sobre um colchão mofado de uma cama triste, Leonardo nunca tirou das lembranças, pois as memorias mais tristes são sempre as mais fortes. E, durante esse período, Leo não precisou afastar-se de nenhum amigo. Nunca possuiu nenhum. A doença o isolava dos outros como a lepra também o faz com o pobre coitado que foi por ela tomado. Assim, sua solidão passou a ser seu companheiro fiel e os sonhos tornaram-se seus remédios diários para o vazio de seu mundo e de sua esperança falida.       


O tempo não contribuía em nada para que seu corpo ganhasse, ao menos, um novo impulso saudável. Quase não conseguia manter-se sobre os próprios pés de pele macia, necessitando de duas muletas para auxiliar lhe na difícil tarefa de efetuar passos quaisquer. A cada metro à frente que suas pernas avançavam, para ele, se conjeturava um milagre e, às possibilidade de conhecer sozinho as vielas de seu bairro, dava por  expectativas vagas e remotas.         


Um dia, que surgiu em seu animo como o mais sublime de todos, convidaram o garoto à passar as férias numa cidade vizinha que seu tio habitava. Não podia ninguém, todavia, acompanha-lo na viagem. Leonardo iria sozinho... e estava totalmente feliz por isso. Iria, pela primeira vez, desenvolver em si a iniciação alegre de caminhante independente. Se encontrava com ânsias de explorar, finalmente, o ar livre das ruas e ruelas urbanas sem a vigilância incomoda de algum parente ou “protetor”. A preocupação, entretanto, tomou a consciência dos pais de maneira intensa e até agonizante. “Não sei se devemos. É perigoso”, disse o pai de rosto pálido e coração aflito. A mãe, alma de libertina, disse: “Por que não? O garoto deve sair. Conheço vários com seu mesmo problema e que caminham livremente por essas bandas e até além. Acho que não devemos deixar nossas rédeas sufocarem o garoto.” Tais palavras se estenderam pela teia das horas e entraram na escuridão da noite. Passou-se os minutos, mas a inquietação de Leonardo permaneceu de guarda em sua alma tão jovem. E, sentado soturno ao sofá, vendo as muletas no canto da casa, questionou em qual versão de seus dias a felicidade poderia estar. Seriam as muletas as testemunhas eternas e únicas de seu sofrimento intimo?  Ouvia, o garoto, as vozes do asfalto e do chão de terra badita do mundo lá fora que pareciam dizer: “Venha. Somos seus servos, amigos e além. Venha. Um mundo real e fascinante espera você aqui”. 


Temeu ouvir a melodia amaga da negação dos pais virem-lhe até os ouvidos, estraçalhando-se toda a esperança clara de alegria que ainda lhe poderia germinar. Ao ver os progenitores lhe aproximarem o semblante de incerteza e temor, contemplou seus rostos entreolharem-se angustiados e vagarosos e, então, ouviu um “sim” frágil partir dos lábios paternos e prosseguindo: “Mas tenha cuidado. Ligaremos constantemente ao seu tio, perguntando por você.”. O interior de Leo foi tomado pelo banho do aviltado jardim das delicias e, em seu espirito moço, viu nascer, ineditamente, o luz clara duma arvore feérica. Não livrou-se totalmente da dor de estima por possuir um corpo tão debilitado, mas, naquele instante, sentiu-se como se a carne que lhe cobria os ossos já não possuíssem importância alguma diante dos fatos. Leo viajaria sozinho e conheceria o mundo com quem tanto tomou vãos devaneios.      



Dentro de dois dias, se encaminharam os pais do garoto (e o garoto) à velha estação de metro da cidade. Com passageiros diversos, de tão variados destinos, Leo se surpreendeu com a estrutura daquele estabelecimento metálico que, até então, havia só conhecido por meio de fotografias velhas. Surpreendeu-se com os guichês envidraçados, com o olhar sério dos seguranças e orientadores de embarque, e com o grande volume de malas das pessoas que entravam naquelas enormes serpentes de ferro. Deparou-se com a correria, ás vezes histéricas, dos indivíduos que carregavam nas costas as coisas que havia escolhido para partir. Leo possuía apenas uma mala de vermelho negro que guardava as poucas coisas que sempre lhe pertenceram na vida: roupas leves para o clima da cidade, livros de bolso com ótimas prosas e versos, escova de dente, roupas íntimas e todos os acessórios da qual um garoto da sua idade usufruía. E até alguns desejos que guardava consigo foram acrescentados à novas ânsias que a emergência da viajem lhe veio acrescentar. Lágrimas secretas se expurgaram dos olhos brilhantes de sua mãe e, quando o metrô de Leo irrompeu na estação, ela, como que por impulso automático, correu ao seu único filho e enlaçou aqueles braços maternos naquele corpo pequeno. O menino se viu sufocado naquela maré de suspiros e murmurações trêmulas, mas, considerando a realidade humana, os pais são elementos únicos do universo. O pai, por sua vez, ofereceu um abraço mais modesto, mas não menos melancólico (e saudosista). Disse um leve “te amo muito” e, naquelas palavras, Leo não pode evitar beber da fonte de uma sabedoria interna e, portanto, nem muitas vezes visível aos medíocres. Percebeu, que muitas vezes, o amor paterno é o verdadeiro amor sincero, embora conspurcado pelos estereótipos sociais, e que o amor materno, muitas vezes, é um teatro instantâneo, já pronto, com o qual os filhos se iludem, devido à grande hipocrisia que ai se inculta por convenção das dissimulações sociais. Saber que permaneceria longos dias sem a presença daquele casal que aprendeu a amar (e, não raras vezes, a nutrir ódio) lhe alimentou uma certa semente de tristeza. Mas, para descobrir novos universos, muitas vezes, precisamos nos perder para além das estradas do convencional. E Leo tinha completo conhecimento disso.            

Deu o menino o último adeus aos pais e adentrou, zeloso com suas muletas, naquela cobra de metal reluzente junto com uma massa de pessoas que, opostamente à ele, não estavam nada contentes. E, ao partir, o metrô não permitiu que o menino visse mais ninguém lá fora, exceto as paredes escuras de um túnel macabro e os corpos grandes das pessoas do interior do transporte. O veículo estava lotado e, de pé, o menino não conseguia ter força suficiente em suas mãozinhas para segurar as barras de apoio, juntamente com suas muletas. Assim, observando a enorme dificuldade do garoto, um homem negro levantou-se de seu acento e o ofereceu ao petiz. Leo obviamente aceitou e, com um sorriso infantil, que sempre encantava à todos com aqueles pequenos dentes de leite, agradeceu ao homem. O negro retornou o sorriso ao jovem, aparentando um admiração profunda pelo menino. Já sentado, Leo começou a esfregar as mãos para lhe amenizar o grande frio que se instalava ali. ”E ainda nem choveu”, pensava ele com todos. Tentou esquentar as bochechas com as palmas das mãos e, nesse instante, fortuitamente, notou que dois homens fortes, grandes e barbudos, sentados num canto, o observavam com atenção. Os homens conversavam de esguelha entre si, enquanto lançavam olhares constantes ao garoto. Leonardo, obviamente, sentiu grande desconforto. Nunca se sentira assim. E descobriu ele que não gostava de ser observado muito diretamente por estranhos, como um quadro exposto numa galeria que servia para embelezar os olhos dos passantes. Leonardo desviou o olhar dos homens, mirando-se na janela do metrô que, naquele momento, já havia saído do túnel para ceder imagens de uma cidade de grandes prédios, arranha-céus e estradas. Contemplou com encanto as nuvens de cores fortes que a aurora fazia no céu. Leonardo já havia visto esta mesma imagem da janela de sua casa e do leito do hospital onde ficara internado por anos. Mas nunca havia presenciado a beleza daquela aquarela natural da janela de uma grande locomotiva. Lhe era um encanto totalmente novo, pois a beleza de um cenário sempre pode ser renovada pela perspectiva do observador. Permaneceu embelezado, por muitíssimos segundos, com a primeira imagem do seu “novo mundo real”, pensando: “Papai e mamãe são grandes sortudos por poderem ter isso todos os dias.”. E pensou que era maravilhoso poder viajar com um cenário assim, apesar das grandes dificuldades enfrentadas dentro do metrô.     


Porém, ao retornar os olhos para dentro da locomotiva, notou que os dois homens, que tanto haviam lhe incomodado, ainda permaneciam a lhe observar incisivamente. Leo, neste instante, sentiu um incomodo ainda mais forte lhe acometer, como se uma agulha ácida lhe atravessasse a pele. Virou todo o tronco em direção à janela, desta vez abraçando as muletas, e, mirando o olhar nas paisagens (que agora pouco lhe aliviavam) perguntou-se porque tais indivíduos o fitavam muito impertinentemente. Começou a torcer para que a viagem fosse concluída o mais rápido possível para que pudesse encontrar com o tio, que estaria aguardando pessoalmente sua chegada.           

O metrô chegou a outra estação por volta das nove e meia da noite. Leonardo, por sua condição de debilitação física, aguardou a saída de todos os passageiros para, só após, deixar o veículo andando zelosamente com suas muletas fieis. Pegou sua mala com o guarda-bagagens e, assim que o comboio partiu com uma nova leva de passageiros, o menino notou que não havia quase ninguém na estação. E, olhando em volta, notou com tristeza que seu tio ainda não havia chegado. Altamente cansado, o garoto sentou-se pesarosamente num banco que ali havia, pousando as maletas num canto e começou a aguardar. Na tranquilidade da noite, deixou o olhar pousar nos trilhos cobertos pelas sobras e ferrugem, observando uma ordinária embalagem de doces se arrastar pela plataforma. Espantou com as mãos algumas moscas que estavam voando sobre sua cabeça e, ao sentir o impacto de uma forte corrente de ar gélida, enfiou as mãos pra debaixo da jaqueta e começou a esfregar o próprio dorso com aquelas palmas semifrias. Olhou para o céu e ao notar que era noite fechada, não duvidou de que iria chover. Repentinamente, naquela tranquilidade, naquele silencio, suas pálpebras começaram a se tornar pesadas e um véu de sonolência começou a envolver-lhe fortemente. Como se uma bigorna estivesse sendo enterrada em seu crânio, sua cabeça começou pender, de forma que seu queixo aproximava-se do peito. Sentiu como se uma toalha invisível envolvesse o ruídos externos de forma que, de olhos já fechados, uma enorme som abafado surgia dentro de sua cabeça. Já não vendo nada, só escuridão, o menino estava indo lentamente entregar-se aos braços de Morfeu.      

Neste instante, sentiu uma mão grossa afagar-lhe os ombros, dizendo-lhe:   


//Cuidado, garoto. Uma estação não é um bom lugar para dormir.    



Despertando espantado, Leonardo pensou que pudesse se tratar do vigilante da estação. Porém, sua surpresa foi muito maior. Ao virar-se, percebeu que tratava-se de um dos homens grandes (alto e forte) que o haviam observado no interior do metrô. Ao deparar-se com aquele rosto barbudo, Leo sentiu como se um enorme bloco de gelo houvesse sido arremessado em seu coração e destruído uma de suas espinhas. E seu temor elevou-se ainda mais quando o homem pediu:      

//Posso sentar ao seu lado?         


A palidez dominou o menino. Sentia que uma forte paralisia havia pousado em suas mãos e que a dormência havia envolvido suas pernas. Um forte formigamento lhe tomou a nuca e, antes que o menino pudesse ao menos mover os lábios, o homem sentou ao seu lado com um enorme sorriso ao rosto. O individuo virou-se para o menino (gesto que fez o petiz gelar os ossos), apoiando o cotovelo no encosto do banco e a bochecha nas mãos, enquanto observava Leonardo com peculiar atenção.  Leo nada compreendia daquilo, mas o medo nele era, sem duvida, totalmente compreensivo. O menino fitou o chão, não ousando desferir qualquer palavra ao estranho, enquanto sentia um novo formigamento surgir nas bochechas. Com um voz de encantamento e até mesmo ternura, o homem disse:        

 //Você é muito bonito, sabia?         

Oh, Deus! O que ele quer comigo? Por que ele me disse isso?”, pensou com a sua parte de sua consciência que ainda tinha coragem. O homem, então, prosseguiu dizendo:            


//Alguém já lhe disse alguma vez que você é bonito?     



Leo sentiu um grande asco ou repulsa crescer em seu interior, não sabia extamente o que era, mas tratava-se de algo  que lhe preenchia de grande incomodo. O petiz assim, pegou suas muletas, ergueu-se de chofre, sem responder à pergunta, e, carregando sua mala, começou a caminhar para a saída da estação. Deparou-se, então, repentinamente, com um segundo homem alto, forte e de olhar penetrante. Era o segundo homem que havia importunado a viagem de Leo com olhares incômodos e até inconvenientes. Agora, o outro estranho encarava o menino com um semblante de esfinge e um sorriso assombroso que arrancou profundos suspiros do petiz. 


Aproximando-se dele à passos lentos, o indivíduo balançou a cabeça em sinal em sinal de não, com uma expressão provocadora no rosto e disse: 

 //Seus pais nunca lhe disseram que não é educado deixar as pessoas falando sozinhas? 



E neste instante, por um impulso completamente advindo de seu instinto infantil, o garoto sentiu sua repulsa preencher ao máximo seu interior tão pequeno. E, forçando reunir forças em suas pernas e braços nas muletas, tentou correr rapidamente para fora dali. Neste interim, deixou sua mala cair no chão da fria plataforma e as fortes mãos musculosas dos homens envolveram- lhe as axilas. Também sentiu uma outra mão quente e suada cobrirem-lhe os lábios, de modo que, sentindo um forte ardor e amargor na boca, o garoto não pôde exprimir sequer  um som. Moveu-se bruscamente de um lado à outro, na tentativa de livrar-se das amarras humanas, enquanto um suor frio lhe descia a tez  e sua mente questionava: “Oh, Deus! O que eles querem comigo?!”. Sentiu ambas as muletas lhe saírem dos braços e seu pequeno corpo infantil ser arrastado pela dupla de fortes músculos até um canto sombrio e fechado da estação. Observando o forro sujo, as paredes pichadas e um amplo espelho embaçado, Leo reconheceu o banheiro masculino.  


Suas costas frágeis foram jogadas contra o chão do recinto e, com bastante furor e respirações rápidas, os homens despiram as roupas de todos ali. Com as camisas e calças jogadas longe, o menino sentiu uma enorme sensação de frio gelar-lhe a pele em contato com o chão e, devido ao enorme cansaço que ainda lhe dominava, não possuía forças para sequer mexer os braços. E foi ali, naquele cenário de asco e náusea, com odor de suor masculino e ralo fétido, que os dois homens pousaram no corpo de Leo o instrumento de seus mais profundos tormentos. O suor se juntou a sêmen, ardor se juntou à fúria, e o menino se juntou forçosamente ao véu do pecado. Deitado ali, com enorme dor nos ossos, sentiu a face formigar como que atingido por saúvas e, neste instante, lhe doeu o peito, como se seu tórax fosse puro chumbo. Não conseguia mais sequer mexer as pernas. A dor se transmutou em paralisia. Sua voz sumiu em sua garganta e lágrimas quentes lhe romperam dos olhos. O ardil no peito tornou-se mais denso e seu sofrimento alagou em seu coração. Sentiu um líquido espesso lhe vazar entre as pernas. Era um líquido escuro, vermelho e soube imediatamente que era seu. 

Neste instante, então, os homens se levantaram, juntaram suas devidas roupas do chão e as vestiram rapidamente. E um deles, antes de ir embora,  beijou as faces molhadas de Leo (que, de olhos fechados, tentava sufocar as lágrimas e a repulsa) e sussurrou:

//Desculpa, garoto. Não queríamos nada de mal à você. Sinto muito. 

E assim eles deixaram o recinto, de modo que o som de seus passos foram se arrefecendo até sumir. O garoto, por sua vez, permaneceu com fortes dores no corpo e na sua doce alma juvenil que, agora, era puro fel. Não sabia ele se devia abraçar tomar os arrependimentos pela viajem que o levara até ali. Não ousou questionar-se da validez de sua ânsia juvenil. Mas penas rezava (ou orava) para que fosse encontrado. E foi. Um segurança estagiário de trinta anos se horrorizou com seu estado corporal e espiritual. Logo após, Leonardo enfim se encontrou com seu velho e preocupado tio, mas só após relatar todos os detalhes do caso na delegacia próxima dali.   

Nos dias que se seguiram ao fato, o jovem soturno manteve seu cordão de isolamento mais intenso que nunca. O tio esforçou para, durante a estadia do sobrinho, encher-lhe o máximo possível de felicidade e alegria. Não tiveram, tais esforços, efeito algum. O menino não queria mais sair para parte alguma. O quarto do tio passou a ser o novo refugio daquele petiz ultra melancólico e as muletas de metal enferrujado, que auxiliavam as pernas doloridas do garoto, passaram a ser o mais querido (e talvez o único) amigo a quem Leonardo passava horas inteiras em companhia, abraçado à eles. Seu emagrecimento notório tornou-se preocupação enorme para o irmão do pai daquele  pequeno ser. Da mesma forma, os pais de Leo descumpriram o acordo forjado com o filho, de entrarem constantemente em contato com o ele. À essa falta, os progenitores lançaram o argumento de “esquecimento por força maior”, em decorrência de motivos inesperados e que requeriam imediata atenção. Telefonaram só muito tempo depois, para receberem a notícia, por meio do melancólico tio, que o garoto foi encontrado sem vida no quarto de hóspedes, de bruços no chão, com sangue escorrendo entre as pernas e uma mensagem vermelha que escrevera nas paredes do quarto por meio das unhas:  

Tinham razão, fotografias vãs. O mundo é um lugar incrível. Agora sei disso, pela maneira esplêndida pela qual as pessoas amam umas às outras. Deus abençoe esta terra.” 


(Crédito da imagem: Henrique Luiz)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Gramática da Morte

Palavras, palavras!
Palavras malditas!

Vejo-as em toda a parte
Tento afoga-las nas sombras da embriaguez
E as palavras me afogam em delírios de mármore.

Tento combate-las jogando-as umas contras
as outras, no vão daquela parede de gêsso.
Mas, no fim das contas, não compreendo
o que eu próprio fazia em minha ilha recortada de letras.
Para que recorta-las? Eu as fiz. 
Eu as quis.

Palavras, palavras!
Palavras sangrentas!

As fronteiras de facas são dez mil orações vazias
O inferno de Dante são mil conjugações de pretérito perfeito.
Tua crase alongada é um risco no céu
Subordinadas são minhas lições.

Coordenadas vizinhas não creem em ilusões
Topônimos de vinho são tuas algemas.
Sintaxe em linha reta numa estrada, perto de um bar
Morfossintaxe lenta prossegue em mais mutações.

Contemplo aquela oração me encarando de longe, no deserto

Parece flertar comigo
Convidando-me para transarmos e fazermos cada vez mais frases.

Suas letras maiúsculas parecem sérias demais
A exclamação, ao final, parece um major militar.

O palanque sou eu, para a construção do morfema.

Meu cérebro busca uma sinapse na gramática do Bechara
Deita em suas flexões e abusa do rosto de suas sentenças.

O sujeito foi eu retirar-me da frase.
Nunca entendi seus signos.

sábado, 29 de novembro de 2014

A Odisséia Ébria


A exaustão da Terra havia me alcançado, havia me domado e tornado-me seu prisioneiro. Em um momento de descuido, conseguir romper com as correntes e pulei a cerca para o jardim desconhecido. Já em terra nova, caminhei em nuvens de seda, nuvens de borracha, pontes de ar. Eu vi o céu azul-celeste contrastando com afluentes de rosas, roxos, verdes e outros tons. Me fiz de andarilho pelo arco-iris do céu, enquanto tudo termina em cinzas no solo dos mortos. Cada vez mais perto do fim, o arco-iris foi se tornando mais quente. Suas cores estavam mais vivas. Eu estava mais vívido que um parede de luz alcoólica. Uma parede de algodão colorida e repleta de lágrimas de luzes. 

O odor de álcool. 
O odor da cerveja. 
A dor da certeza. 

Enfeitiçado como um néscio, fui engolido pela luz. Cuspido pelo fogo, quando Deus me deixou entrar. 

Me tornei um deus duvidoso. Quem iria limpar minha cama? Quem iria varrer o meu templo? Quem iria avivar minha chama?

Me tornei a solitária energia do Rock e a melancolia dos fados portugueses. Em bares com putas e cafetões, experimentei o sabor ardente do pecado original. Com homens bêbados em bares, me inebriei em meu nirvana sozinho, entre outros deuses da música e da solidão. Senti o enjoo do vinho e partes do meu fígado se espalharam em uma calçada de giz.

Senti os cigarros dos mafiosos formarem cortinas de fumaça no papel de parede dos pubs. Presenciei advogados contestando seus próprios argumentos de incisos, enquanto bebiam cerveja belga tal como leite. Homens de meia-idade fodiam com garotas de dez anos e mães vendiam partes dos seus filhos para universidades de medicina. A face hilariante do orgulho e desprezo dos pobres estampavam as ruas, enquanto pensavam que animal de estimação assariam em sua panela.

Coisas boas surgiam das sombras e malefícios nasciam na luz.

Fui empurrado para o Templo dos Deuses de Cera e ele se chamava "Coração dos Pobres". Quem não conhece a deficiência desses deuses que então se arremesse nesse templo. Eu presenciei a risada dos mendigos, enquanto apenas sonhavam com mesas de vinho.

Haviam pessoas cheias quando na solidão e vazias na presença de outros. A companhia da felicidade do som de si é a verdadeira fé. Isso é algo que morrerá conosco: a fé.

A fé existe para revelar o futuro e  a verdade suprema. O verdadeiro presente que Deus deixou para trás.

Pois no fim, sabemos que é tarde demais. Sempre foi e sempre será... tarde demais.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O homem da alma de ferro

Ele sorri para mim todos os dias, quando passo próximo à ele às oito da manhã, e permanece sentado em frente à sua humilde casa (com janelas quebradas, paredes furadas) em uma cadeira de plástico e, no rosto, um sorriso de dentes amarelos que permanece estendido até às onze da noite. Ele já é um homem avançado em idade: tem setenta e um anos de vida e trinta de muletas. É aleijado, embora andasse (com muita dificuldade). Adora crianças. Sempre o vejo com algum minininho ou minininha nos braços, apontando, alegremente, para algum elemento que sempre fascina as crianças: uma borboleta,um felino que corre atrás de ratos ou um cachorro doido que simplesmente perseguia motos ou carteiros. Mas nunca se soube que ele tivesse filhos e nem, portanto, netos. As crianças que o cercam eram, certamente, de amigos, vizinhos ou parentes.

Eu nunca o conheci muito profundamente. Ele era só. Sem pais, conjugue, nada... Chegou a conhecer o escritor semi-recluso Haroldo Maranhão, mas foi há muito tempo. Agora ele é só. E, sendo só, sua felicidade era tanta que, surpreendentemente, não suportava guarda-la apenas para si. Tinha necessidade de partilha-la. Partilhava-o através de um sorrisso, de um "bom dia", ""boa tarde" ou "boa noite". Em frente à sua casa, havia uma pilha que lembrava um mini ferro-velho. A maioria dos entulhos eram grades. E essa era a profissão dele: um fazedor de grades. Alguns diziam: ferreiro. Tanto faz, quanto tanto ferro. Ele trabalhava com soldas, com metal de depósito e metal da alma. E, enquanto possuía saúde, seu emprego era o recheio e o emprego da sua vida. Com a descoberta da osteoporose em seu corpo por um médico velho, o fazedor de grades foi compelido à abandonar a sua profissão. As grades que fazia no passado, ajuntou (reuniu, não sei qual o melhor termo) em frente a sua casa, tais quais vigilantes, amigos porteiros, família.

Desde então, a profissão do fazedor de grades passou a ser o descanso constante emsua cadeira de plástico, em frente à sua casa, e a distribuição de sorrisos e gentilezas para amigos e vizinhos.

Sempre que alguém fala sobre o fazedor de grades e afirma que ele entregou-se à aposentadoria, eu nego e afirmo veementemente que ele apenas mudou de profissão. Agora, ele se tornou um fazedor de sorrisos. 

sábado, 4 de outubro de 2014

Os traidores da Santa Inquisição Moderna

//Senhor Nespoh!

As palavras saiam como fogos de artificio colidindo com paredes de concreto.

//Senhor Nespoh! Não se esqueça de que temos novos amigos. Seja discreto. Não conte para ninguém que não seja de extrema confiança. Não se esqueça!


Como esquecer? Ele o lembrou dez vezes na mesma hora. Durante os minutos antecedentes, Hans Nespoh pareceu uma mula empacada no próprio tédio... até ocorrer algo interessante. Via-se numa igreja, dormindo, sob a batina de um rapaz negro e musculoso de dezessete anos. Cacete! Dizem que este negro bateu na cara de um coroinha mais novo apenas porque existiam boatos de que este era masoquista. E o coroinha mais novo, por uma questão de desejo, insultou o homem negro com palavras impublicáveis apenas para que este pudesse bater mais violentamente. Mas o negro não era nem um pouco néscio. Sabia da estratégia dele e, como era muito misericordioso, o negro não se negou a oferecer uma dose extra de violência gratuita para aquele filho da mãe que amava ver o próprio sangue jorrar. E assim o negro bateu. Sim, bateu! Bateu forte para valer. 

Aquele era o prazer da violência gratuita, algo que apenas os homens mais experientes da Terra em questão de miséria eram capazes de compreender. Para os miseráveis, para os néscios, para os esclarecidos deste mundo doente, apenas o sangue liberta. 

Mas violência, de repente, tornou-se como cocaína: um prazer culposo, que é preciso fruir apenas em lugares ocultos. Esses lugares são vastos. O mais conhecido é o quarto. Este é o lugar não apenas do sangue, mas também de lágrimas e (no caso dos homens) também do sêmen, de muito sêmen, o sêmen que substitui a cera que lustra o piso de lajotas vermelhas. Se os homens fossem mais ligados ao dinheiro do que normalmente são eles cobrariam no mínimo duzentos reais para que as indústrias de limpeza doméstica e de material escolar utilizassem seu sêmen para a produção de graxa, lustra-móveis e cola escolar. Mas enfim! O ardor por emoções desconhecidas cobre os homens como o céu cobre a Terra. “Mas é preciso algo novo”, pensou o negro. E então, este chamou o padre Eliam: um homem idoso, de cabelos grisalhos, mas com fogo que oblitera larva de vulcão. Disse-se de que o negro e o padre foram para um compartimento afastado e desocupado da igreja. Ouviu-se muitos murmúrios, gemidos e objetos sendo quebrados dentro do recinto. Ninguém quis interromper. Algum tempo depois, Hans foi incumbido de ir até o quarto e informar ao padre que a missa iria começar. Foi até lá. Quando aproximou-se da porta, já não ouvia barulho algum. Nem gemidos e nem suspiros foram ouvidos saírem daquele recinto misterioso. Hans bateu respeitosamente na porta. Não houve resposta alguma. 

 //Padre? Padre você está aí? Preciso lhe dizer algo.


O silêncio foi como navalha fria na pele de Hans. Ele atreveu-se, com a respiração suspensa, a girar a maçaneta da porta. Sentiu o trinco destravar-se na soleira. Abriu lentamente a porta e, quando se deu conta, o padre estava de joelhos na beira da cama. Sua batina parecia mal vestida e ele aparentava estar orando. Mas sequer respirava. Hans aproximou-se dele, tocou na pele fria e pálida do seu rosto e pôs a mão  no peito do ancião. Aquele idoso já não mais possuía alma alguma em seu corpo. Deu-se conta de que seu amigo negro já não estava ali. Talvez já saíra quando o padre decidiu iniciar uma rápida reza para preparar-se para a missa. Assim Hans ficou delegado de chamar a ambulância. E chamou. Logo após, foi incumbido de ir pessoalmente até a casa do coroinha masoquista para informar sobre o deprimente fato. Os outros, segundo lhe disseram , não deveriam saber. Não deveria ser criado alarde no dia em que o padre iria proferir uma missa no dia de seu aniversario. Interessante presente enviado por Deus... ou, quem sabe? Bom, já estava morto. Mas esta história ainda não acabou. 

 Quando chegou na casa do coroinha, notou Hans que todas as portas estavam abertas e que nada havia sido roubado. Entrou ele apressado, impulsivamente (não sabia o motivo) na residência e, ao encontrar o quarto do coroinha, notou que este estava nú sobre a própria cama e acompanhado do negro que, por sua vez, vestia colant de roxo. Ambos estavam mortos. Na janela estava escrito dez vezes a frase: 

Não devo cometer pecados nojentos”.


Droga!”, exclamou Hans correndo assombrado daquela casa e com uma forte náusea lhe corroendo a garganta. Ele passou mal durante várias horas naquele dia. Entretanto, logo nas semanas que se seguiram, houve uma extrema carga de felicidade que recaiu sobre a alma de Hans. Era uma felicidade que nunca se havia visto antes em sua vida, embora continuasse vivendo da mesma maneira, possuindo as mesmas coisas e tendo o mesmo ritmo de vida. Nada parecia atribuir razão a sua felicidade repentina, enquanto a paróquia ao qual fazia parte ainda travava luto pelas mortes horríveis que lhe marcaram. Alguns dias depois, um outro coroinha, da mesma igreja de Hans, mas desta vez mais velho, apareceu morto dentro de sua própria casa. Disse-se de que neste dia, um velho amigo de Hans conversava aos cochichos com outro colega, dizendo: 


//Esse Hans é maldito. Mais um de seus amantes traidores foi ao inferno hoje. Eu é que não quero mais me aproximar deste cara. Nunca mais. Nunca mesmo, enquanto eu existir. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Entrevista com Lúcifer

Eu era um simples universitário graduado em jornalismo e havia acabado de ser admitido como redator-estagiário de um grande jornal quando esta experiência me ocorreu, tão inesperada como uma lufada de ar gélida numa gruta subterrânea. Eu estava na minha primeira semana de estágio e deveria realizar uma entrevista com uma personalidade importante e que, certamente, deveria atribuir peso ao meu currículo. Faltava uma semana para a entrega do meu trabalho ao departamento de redação e nada estava pronto. Começava a sentir o verme do desespero mordendo a minha carne nua e, quando parecia que eu deveria começar a formular uma desculpa ao redator, recebi uma chance estranha. Uma carta chegou ás minhas mãos, em papel reciclado (e com aroma de jasmins) de uma personalidade muito obscura que, embora eu não tenha convocado, mostrou-se disposto a trocar algumas palavras comigo. Era Lúcifer, o guardião-mor dos anjos decaídos. No momento que vi sua mensagem na carta, obviamente não acreditei. Achei que possivelmente fora enviado por algum colega de estágio, que se aproveitava de minha aflição para lançar-me em alguma piadinha de quinta categoria.

Todavia, ao observar a assinatura do espírito maligno, notei que não tratava-se de uma assinatura que pudesse ser propriamente humana. Pareciam signos antigos em que as letras cursivas faziam surgir lembranças de velhos mestres e sábios que a humanidade outrora possuía, com algum vão imperador de uma província de tempos remotos.  A fragrância belíssima do papel me fez pensar quão caprichoso era o anjo demoníaco e quão prepotente deveria sê-lo. Senti certa aclimatação com o aspecto primoroso que a correspondência tinha e comecei a pensar com a minha consciência se o anjo negro merecia uma entrevista de minha autoria. E quem acreditaria que eu, simples estagiário de comunicação social, tive um encontro profissional com o Grande Senhor da Escuridão, Mestre das Trevas? Eu seria visto como um lunático por todo o departamento de redação, ou então um grande mentiroso que lançou mão de um subterfúgio esfarrapado para uma simples tarefa não cumprida.

Mas, exceto Lúcifer, que outras escolhas haviam para mim?  Deveria eu arriscar um encontro com o anjo caído ou sabia que me restaria entregar apenas um folha em branco ao meu chefe, junto com uma caixa de chocolates. Assim, vesti-me com roupas de profissional renomado (embora eu ainda não alcançasse o nível) e coloquei, no bolso do terno, uma rosa branca para mostrar meu respeito (ou medo) para com o príncipe maligno. Peguei meu bloco de notas e canetas de tinta preta, tomei uma forte dose de café puro e, controlando toda a ânsia que se explodia em mim, parti para o local do encontro que estava descrito na carta. Curiosamente, notei que não havia um horário especificado para o compromisso marcado na carta. Porém, como Lúcifer era altamente conhecedor das dimensões temporais, deduzi que ele saberia o horário correto em que eu partiria para encontra-lo.

Meu coração parecia intensamente açoitado por correntes de ácido à cada metro que eu me aproximava do local marcado. Um sabor azedo começou a expandir-se em minha boca e, à medida que andava, comecei a ouvir sons de sinos que ficavam cada vez mais altos. Repentinamente, me vi numa enorme plataforma branca, no meio do nada, como se os prédios, casas e pessoas houvessem desaparecido do mundo.

Então, mais à frente, avistei um menino pré-adolescente sentado numa cadeira de jantar e cercado de vários pombos vermelhos. Comecei a me aproximar do menino e, quando cheguei à uma determinada distância, os pombos de penas rubras voaram, criando vários pontos vermelhos que se espalharam pelas nuvens. O menino,olhando pesaroso para os pássaros que o abandonaram, disse num suave e lamentoso tom de voz:

//Você mandou meus pássaros embora.

Corando por completo, eu me desculpei com ele. Mal havia eu chegado e minha primeira impressão certamente se distanciou de um caráter positivo. "Que droga!", censurei-me intimamente em meu pensamento. O garoto, então, retirou seu olhar dos céus e me fitou com aqueles olhos cor de rosa. Aliás, o aspecto do menino me era completamente inconvencional. Sua pele era massantemente macia e pálida com tons rosados (principalmente ao redor dos olhos). Sua expressão era triste e soturna e, embora aparentasse que estava atento à minha presença, eu possuía a impressão de que seu olhar estava, na verdade, voltada ao vazio. Seu rosto era oval, com bochechas medianas, e cabelos muito lisos e compactos de cor de avelã que estavam penteados na forma de um livro partido quase ao meio. Estava ele vestido apenas com uma bermuda bege de onde varavam suas macérrimas pernas sem pelo, pés descalços e um tronco de onde, no meio do peito, brotavam cogumelos de pele com chapéus de cor dourado-ouro. Dos chapéus dos cogumelos saiam, a cada três segundos, pedacinhos brancos que subiam até o céu e se desmanchavam nas nuvens.

Outro elemento curioso eram as unhas vermelhas e cumpridas que o garoto possuía em ambas as mãos como se fossem postiças (embora parecessem totalmente reais... e certamente eram). Em suma, o menino possuía a aparência de um belíssimo boneco de pele e sua beleza era tão intensa, tal qual uma luz eterna, que, num determinado instante que meu olhar se deparou com seu delicado rosto, senti uma vontade quase animalesca de encostar meus lábios naquela pele macia. Senti meus lábios formigarem e meu desejo foi tornando-se mais intenso quando ele, com sua voz de veludo, disse-me calma e lentamente:

//Sente-se, amigo.  Sentiria-me constrangido se eu soubesse que desperdicei qualquer porção de seu precioso tempo.

//E me sentarei onde?/ questionei eu, olhando em volta e só recebendo a visão de uma abandonada plataforma branca.

O menino, assim, apontou o dedo macérrimo para atrás de mim e visualizei um trono feito de metal enferrujado. Não compreendi aquele gesto. Por que o Mestre das Trevas, que decidiu se apresentar á mim como um garoto franzino, me permitiria sentar num trono (ainda que tomado pela ferrugem) enquanto ele (o maligno) permaneceria sobre uma simples cadeira de madeira? Por que diminuir sua potência vaidosa para se apresentar à mim? Não me pareceu coerente. Mesmo assim, sentei no trono de metal frio indicado por ele e vi um leve sorriso estampar seu rosto por alguns segundos (como se soubesse o que eu estava pensando). Senti um odor de jasmim emanar intensamente de sua pele e, ao entrar em minhas narinas, parecia que uma enorme bolha se expandia dentro do meu peito. Tentei ignorar o incômodo que sentia em minha pele e, para não ser eclipsado pela beleza infantil e sobrenatural do menino, evitei olha-lo muito continuamente, mantendo maior foco no bloco de notas em minhas mãos. E tentei iniciar calmamente a entrevista, embora atropelasse as palavras:

//Bom, Senhor Lúcifer. Já irei dar inicio á entrevista e, primeiramente, gostaria de saber se posso chama-lo assim: Senhor Lúcifer.

//Logicamente./ respondeu, plácido como um monge/ Não se iluda com meu aspecto jovem. Tenho quase a mesma idade que o mundo, de acordo com a perspectiva temporal dos homens. Entretanto, devo informar que a dimensão do mal não possui taxas mensuráveis. Assim, os anos que possuo de existência e a forma de tratamento que você me dirige não tem qualquer importância.

//Tudo bem/ prossegui, com um leve pigarro/ Se me permite comentar, jamais achei que um espírito maligno pudesse ter um aspecto tão belo.

//A beleza é fruto da minha magnificência. Os humanos se esqueceram disso após algum tempo. Mas Deus partilhou comigo a faculdade do belo quando nasci e, assim, me aproveito dele para fazer-me o mais belo dos seres. As escrituras sagradas é que degradam a minha beleza.

//Bom...Minha primeira pergunta é: por que me convidou para fazermos esta entrevista?

Ele levou os olhos rosados aos céus e respondeu como se estivesse em devaneio:

//A humanidade pegou minha crueldade por muito tempo e tomou posse dela, como de partido próprio. Usou e continua usando meu nome discriminadamente como fonte de autoridade. Também utilizam o nome de Deus hipocritamente e sem o mesmo respeito de outrora. Deus, entretanto, faz sua justiça no devido tempo inalteradamente, por mais longo que seja. Eu não trabalho assim. Quero que anote todos os elementos máximos que denunciam minha força, esperteza, paciência e perspicácia. O mundo está me devendo o respeito que outrora me oferecia.

//Pensei apenas que me ajudaria em minha tarefa de estágio./ questionei com um arrepio na espinha, temendo estar sendo ousado mais do que o necessário.

Ele olhou diretamente em meus olhos com aqueles círculos oculares roseados e senti como se meu cérebro estivesse queimando profundamente. Parecia que um grande enxame de abelhas houvesse se instalado em meu crânio e fui preenchido por um incômodo continuo. E ele me disse, por fim:

//Lhe darei o que quer. Mas, primeiro, preciso de algo. Algo que você tem e que me deixará cada vez mais poderoso. Algo que devolverá meus antigos impulsos e me trará novamente a glória do mundo.

//E o que seria isso?

//Fique de pé./ ordenou, agora, com grave voz de imperador.

Imediatamente, ergui-me diante daquela ordem tão voraz. O garoto, então, desceu da cadeira de madeira e flutuou diante de mim. Seus pés deixaram o chão e seu rosto parou na altura do meu rosto. Ele me encarou por um bom tempo, e então, inesperadanente, ele me deu um beijo, um beijo forte e cortante. Senti sua saliva ácida descendo pela minha garganta e sua língua enroscando-se em volta dos meus dentes.

Então, com toda a força de seu maxilar e de seus dentes de leite, ele cortou minha língua de um modo que nem sei explicar. Desgrudei meus lábios dele por alguns instantes e dei um grito altamente estridente que fragmentou algumas pedras da plataforma. Aproveitando a minha boca aberta, o garoto agarrou minha nuca e voltou a me beijar com lábios ardentes como brasa. Depois, meu corpo paralisou-se por completo, com minha espinha dorsal ardendo bastante. Então, de maneira estranha e inexplicável, mesmo sem desgrudarmos os lábios, ouvi-o dizer: "Você passa a ser meu agora." Minha dor corporal se elevava continuamente, sentindo, dessa vez, as unhas grandes do garoto se encravarem em meu pescoço.

Atingindo um ardor corporal cada vez mais intenso, eu estava prestes a soltar um novo grito de dor quando, então, acordei deitado na cama do meu quarto. Minha pele estava suada e quente. As persianas sequer estavam erguidas e, na leve escuridão do meu quarto, dirigi meus olhos para o despertador. Eram seis e meia da manhã. Não conseguia crer que havia sido apenas um sonho, pois havia sentido uma dor real... uma expectativa real. Havia visto um menino real? Talvez eu houvesse visto e até tocado nele. Talvez o beijo tivesse sido real. Eu não sabia estava muito confuso.

Mas, se meu diálogo com Lúcifer houvesse sido apenas um sonho, então minha tarefa de estágio ainda estava pendente. Meu alivio deu lugar à uma preocupação antiga. Levantei-me sem muito ânimo e, afastei a persiana das janelas e deixei o quarto bem iluminado. E o mesmo sol que iluminou o recinto também deu luz à uma prancheta cheia de papeis (com várias anotações à caneta) que se encontrava sobre minha escrivaninha. Tomei a prancheta em minhas mãos e, com espanto, notei que era uma entrevista completa de autoria minha, intitulada "Entrevista com Lúcifer". Atrás dos papéis, encontrei um pequeno bilhete, onde, com aquela grafia antiga, se encontrava escrita: "Aqui está o nosso combinado. Da mesma forma que lhe dei a entrevista, estou agora com uma parte original de você. A melhor parte que eu poderia ter. Boa noite." 

E o tempo passou. Até hoje me encontro com a entrevista que o anjo maligno me deixou. Está guardado na minha gaveta. Há cada minuto, me pergunto quando poderei lê-la de novo sem aquela sensação de lábios quentes que o desgraçado do inferno deixou em minha boca.